- Não acredito que falo contigo. Não, certamente não falo. Não és o mesmo. Há muito que percebo essa parte tua que detesto! Toco em ti e os pêlos de meus braços reclamam de frio, gelado que estás! Teu olhar, tuas palavras... Tudo teu cospe e urina em cima da pequena fagulha de esperança que ainda resta entre nós! Acorda seu idiota!
Ela vomitava. Aquela que decorara o manual de funcionamento de cada fio de pentelho do meu corpo.
– Escuto histórias suicidas. Elas caminham quilômetros até meus ouvidos. Não as procuro. O desespero parece tanto que, inexplicavelmente, me encontram. Machucam-me, espetando meu corpo. Expulsa lágrimas. Lágrimas inúteis, surdo que és! Então, suplico! Pára! Pára! Pára! Escuta, vê e entende! Fala! Tira essa cara de merda do rosto e fala! Grita! Permite que alguém entre e quebre o grito do eco que simboliza tua solidão. Não estás só! Não procure esta merda!
Ela, que parecia derreter pelos olhos, calou. Tentou, em vão, respirar. Não conseguiu sem o auxílio de seus utensílios antiasmáticos. Continuei em silêncio por mais algum tempo. Refletindo e enxugando nossas lágrimas. Quando a coragem finalmente visitou-me, estava pronto pra falar. Engoli a coragem com as palavras dela, que continuou.
- Teus amigos comentam. Preocupam-se contigo! Tua família está em pânico. Pensam em medidas drásticas. Não entendem o porquê de tanto flerte com a loucura! Temem por ti e pelo teu amanhã. Teu futuro! Tudo que lutaste tanto para conquistar. Tira a lixeira da cueca e te levanta! Encara teus medos! Medos idiotas! Fúteis! Infantis! Infantil talvez seja muito pra ti: uma criança consegue entrar em um aeroporto sem esse cagaço todo. Uma criança consegue dar “tchau”! Perdoar e seguir em frente! Uma criança, quando insatisfeita, chora, grita e berra! Faça um bom infante, ao menos!
Doeu. Cada palavra cuspida feria meu rosto. Ela estava implacável, indestrutível. Linda e boa demais para ser verdade. Parara de chorar. Flagrei-me, novamente, petrificado, estagnado e temendo pelo futuro. No entanto, era um medo diferente. Medo de perder o que não sabia ter.
Doce e boba ilusão.
Em seu discurso sadicamente estruturado, faltava algo. Faltava enxergar a mãe da criança que não sabe chorar, falar, escutar e entender. Faltava pesar a conseqüência de seus atos egoístas: a busca do ouro em El dorado. Faltava que entendesse o valor insubstituível de nossa soma e o quanto isso investe afeto. Permite criar e sentir coisas que técnicas e programas não dão conta. Faltava enxugar a água de seu peito. A água que escorria de seus braços. A água que sobrou nos sacos de gelo que, como uma criança tola, brincava por meses, atirando em mim... Falta muito? Pensei, calado.
É, falta muito.
sábado, 12 de março de 2011
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Chorrir;
Me é difícil pensar em algo tão prazeroso quanto botar uma mochila nas costas e ir embora. Encontrar amigos. Amigos novos, velhos amigos. Conviver com estes, amá-los! Abandonar a floresta de concreto, submersa em chorume e violências. Poluição afetiva que há tempos passa despercebida. O frio no calor fervente do asfalto. Postes e muros pichados. Valas entupidas, cuspindo de volta a merda recebida. Um mundo de fios e cores, gritos e dores. A falta de tesão. As pessoas mortas.
Abandoná-la! Esquecê-la! Estranhá-la! Exercício constante.
Invadir o oposto. Molhar o pé em água salgada. Deixar-se ensurdecer pelo vento que traz a areia que fere o rosto. Tomar banho de chuva e queimar a pele no sol. Ver a impossibilidade de enxergar a grandeza do mar. O vai e vem eterno das ondas com a areia. Estes transam!
Observar, nos poucos corpos presentes, a ausência da roupa. A presença da pele, do toque. Dos sorrisos. Perceber a tristeza do sol em abandonar o dia. O dia que me aqueceu.
A amizade. Abraçar e ser abraçado. Sentir o cheiro de um bom amigo, mesmo que este não cheire bem. Beijar o rosto molhado de água do mar. Ouvir o coração palpitar e a respiração pesar. A voz embargar. Eis quem me entorpece, quem me embriaga. Quem me traz os sentimentos à flor da pele. Quem faz-me chorar e sorrir. Chorrir. A convivência. Conviver. Viver com o viver. Viver. Vim ver.
Agora não sei mais como voltar.
Estranhar o caos no retorno. Perceber o que está posto, o que está claro, o que está dado, seu idiota: não pertenço. Isto aqui não é meu. Sinto muito, mas gosto muito da vida para vê-la esvair-se assim. Derretendo em minhas mãos. Escorrendo dos meus olhos.
Abandoná-la! Esquecê-la! Estranhá-la! Exercício constante.
Invadir o oposto. Molhar o pé em água salgada. Deixar-se ensurdecer pelo vento que traz a areia que fere o rosto. Tomar banho de chuva e queimar a pele no sol. Ver a impossibilidade de enxergar a grandeza do mar. O vai e vem eterno das ondas com a areia. Estes transam!
Observar, nos poucos corpos presentes, a ausência da roupa. A presença da pele, do toque. Dos sorrisos. Perceber a tristeza do sol em abandonar o dia. O dia que me aqueceu.
A amizade. Abraçar e ser abraçado. Sentir o cheiro de um bom amigo, mesmo que este não cheire bem. Beijar o rosto molhado de água do mar. Ouvir o coração palpitar e a respiração pesar. A voz embargar. Eis quem me entorpece, quem me embriaga. Quem me traz os sentimentos à flor da pele. Quem faz-me chorar e sorrir. Chorrir. A convivência. Conviver. Viver com o viver. Viver. Vim ver.
Agora não sei mais como voltar.
Estranhar o caos no retorno. Perceber o que está posto, o que está claro, o que está dado, seu idiota: não pertenço. Isto aqui não é meu. Sinto muito, mas gosto muito da vida para vê-la esvair-se assim. Derretendo em minhas mãos. Escorrendo dos meus olhos.
Assinar:
Postagens (Atom)