sábado, 12 de março de 2011

Gelo;

- Não acredito que falo contigo. Não, certamente não falo. Não és o mesmo. Há muito que percebo essa parte tua que detesto! Toco em ti e os pêlos de meus braços reclamam de frio, gelado que estás! Teu olhar, tuas palavras... Tudo teu cospe e urina em cima da pequena fagulha de esperança que ainda resta entre nós! Acorda seu idiota!

Ela vomitava. Aquela que decorara o manual de funcionamento de cada fio de pentelho do meu corpo.

– Escuto histórias suicidas. Elas caminham quilômetros até meus ouvidos. Não as procuro. O desespero parece tanto que, inexplicavelmente, me encontram. Machucam-me, espetando meu corpo. Expulsa lágrimas. Lágrimas inúteis, surdo que és! Então, suplico! Pára! Pára! Pára! Escuta, vê e entende! Fala! Tira essa cara de merda do rosto e fala! Grita! Permite que alguém entre e quebre o grito do eco que simboliza tua solidão. Não estás só! Não procure esta merda!

Ela, que parecia derreter pelos olhos, calou. Tentou, em vão, respirar. Não conseguiu sem o auxílio de seus utensílios antiasmáticos. Continuei em silêncio por mais algum tempo. Refletindo e enxugando nossas lágrimas. Quando a coragem finalmente visitou-me, estava pronto pra falar. Engoli a coragem com as palavras dela, que continuou.

- Teus amigos comentam. Preocupam-se contigo! Tua família está em pânico. Pensam em medidas drásticas. Não entendem o porquê de tanto flerte com a loucura! Temem por ti e pelo teu amanhã. Teu futuro! Tudo que lutaste tanto para conquistar. Tira a lixeira da cueca e te levanta! Encara teus medos! Medos idiotas! Fúteis! Infantis! Infantil talvez seja muito pra ti: uma criança consegue entrar em um aeroporto sem esse cagaço todo. Uma criança consegue dar “tchau”! Perdoar e seguir em frente! Uma criança, quando insatisfeita, chora, grita e berra! Faça um bom infante, ao menos!

Doeu. Cada palavra cuspida feria meu rosto. Ela estava implacável, indestrutível. Linda e boa demais para ser verdade. Parara de chorar. Flagrei-me, novamente, petrificado, estagnado e temendo pelo futuro. No entanto, era um medo diferente. Medo de perder o que não sabia ter.

Doce e boba ilusão.

Em seu discurso sadicamente estruturado, faltava algo. Faltava enxergar a mãe da criança que não sabe chorar, falar, escutar e entender. Faltava pesar a conseqüência de seus atos egoístas: a busca do ouro em El dorado. Faltava que entendesse o valor insubstituível de nossa soma e o quanto isso investe afeto. Permite criar e sentir coisas que técnicas e programas não dão conta. Faltava enxugar a água de seu peito. A água que escorria de seus braços. A água que sobrou nos sacos de gelo que, como uma criança tola, brincava por meses, atirando em mim... Falta muito? Pensei, calado.

É, falta muito.

2 comentários:

Carolina Coroa disse...

hã.

Caroline disse...

Como faz pra curtir textos no blog?
Te vejo em cada curva e trecho de tentativa de expressão desse textos.
"Numa moldura clara e simples sou aquilo que se vê"
Beijo